Fotógrafo Empreendedor

Fotógrafo só tira foto? Um breve relato de bastidores

Ser fotógrafa é muito bom. Eu amo! Mas confesso que fotografar não ocupa metade das minhas atividades. Sei que isso é realidade para a maioria dos fotógrafos. Mas nem sempre foi assim. De todo jeito, posso afirmar: fotógrafo faz mais que tirar foto.

Comecei minha carreira no laboratório de fotografia da faculdade. Lá eu cortava , rebobinava e revelava filme. Além disso, ampliava fotos. E claro, fotografava muito. Na época, ainda usava filme. Portanto, fotografar muito era usar um filme de 36 poses em um final de semana. O que são 36 cliques hoje em dia?

O laboratório foi uma época muito boa, um tempo de importante aprendizado. A fotógrafa Marta Carneiro, coordenadora do laboratório na época, foi uma importante professora. (Todo mundo do laboratório adorava a Martinha!) Ela incentiva muito o estudo sobre a fotografia e a experimentação. Sempre indicava livros e buscava referências para explicar as dúvidas.

Depois do laboratório, entrei na era digital, quando fui contratada para trabalhar na assessoria de comunicação do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG). O setor de fotografia estava passando por algumas mudanças e inovações. Era o momento de implementar o banco de imagens. Nessa época, meu trabalho era atender todas as pautas do TJMG, chegar no computador para tratar as fotos e organizá-las nas pastas certas. Posteriormente, foi implementado um sistema para organização dos arquivos.

O Tribunal foi meu primeiro emprego. Sempre lembro com muito carinho desse lugar e das pessoas com as quais convivi. A equipe de comunicação era muito boa, acabei fazendo grandes amizades por lá. Nessa época aprendi o quanto era importante a troca de informações entre jornalista e fotógrafo. Eu passei a acompanhar as entrevistas dos personagens ou saía com o assessor para acompanhar a apuração. Assim eu podia oferecer uma fotografia que iria enriquecer ou contextualizar mais a matéria.

Meu outro emprego como fotógrafa foi na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). Quem fala que servidor público não trabalha é porque não sabe do trabalho da assessoria de comunicação da ALMG. Lá funciona de domingo a domingo, desde cedo até tarde da noite. Foi uma época que cliquei muito. Eram muitas viagens e muitos eventos para registrar. Teve um dia que voltei para sala de edição e só me dei conta que tinha saído dos plenarinhos quando liguei o computador. Pelo volume de serviço, estava trabalhando no “piloto automático”.

Mas não estou fazendo críticas ou reclamando da Assembleia. Pelo contrário. Quando sai desse emprego, a gerente de imprensa, Raquel Furtado, me disse algo bem certo: “Aqui é muito trabalho, mas esse batidão ensina muito!”. Verdade! Era muito trabalho, eu precisava ser muito produtiva e ter bons resultados. Estar com pessoas exigentes é muito bom para elevar o nível do serviço prestado.

Na Assembleia, já havia um banco de imagens implementado há mais tempo que no Tribunal. Os processos estavam bem definidos e isso possibilitava deixar o maior tempo possível do trabalho dedicado a fotografar. O que era muito importante pelo volume de pautas. Lá, além de fotografar os eventos e tratar as imagens, eu precisava anotar todas as informações técnicas dos acontecimentos (data, nomes e cargos das pessoas fotografadas, local, nome do evento, entre outros detalhes) para indexar o arquivo de cada imagem.

Da ALMG para o Inhotim. Para quem não conhece, é um grande complexo que abriga arte contemporânea e jardim botânico. Um lugar que já admirava antes de trabalhar e foi questão de grande orgulho fazer parte da equipe. O instituto, apesar de gigantesco aos olhos dos visitantes, é uma empresa relativamente pequena. Lá, além de fotografar, eu precisava organizar todo o acervo de fotografias. Ainda estava sendo estudada a possibilidade de criar um banco de imagens.

O agendamento de pautas e questões administrativas do setor de fotografia eram feitas por mim também. Eu aproveitei o máximo de tempo que tinha para fotografar bastante. O jardim do instituto é exuberante, acabei montando um portfólio bem interessante com imagens de natureza. Na época, fui convidada pelo meu querido professor Mozahir Salomão a expor algumas fotos na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas). Fiquei lisonjeada com o convite e muito feliz com a exposição. Foi incrível!

Passei quase dois anos no Inhotim e senti que precisava produzir coisas novas. Estar lá era muito bom, entretanto, eu viajava todos os dias 120 quilômetros para trabalhar e precisava dedicar metade de todos os finais de semana e, pelo menos, um dia de cada feriado para estar no instituto. Acabei ficando sem tempo e energia para outros projetos.

A solução foi arriscar e pedir demissão. Em julho do ano passado, abri minha empresa para atender demandas de coberturas fotográficas de outras empresas. E hoje, percebo que isso é o mínimo que posso fazer. Que ainda há muita demanda para ser atendida e é preciso produzir e entregar mais do que arquivos de imagem digital.

Atualmente, faço mais reuniões, escrevo mais, planejo e negocio durante mais tempo do que os momentos em que estou fotografando. Isso porque sai do lado de estar empregada e passei a empreender. Revisão de agenda, negociação de taxa nos bancos, planilhas de gastos e rendimentos, tratamento, organização e compartilhamento das imagens, prospecção de clientes e atualização das redes sociais são algumas das atividades que fazem parte da minha rotina.

Sair para fotografar para algum cliente é o resultado de todo um processo, uma construção de valores e relacionamento. E o resultado da fotografia, a imagem capturada, é o fruto da experiência de vida até aquele momento do clique. Tudo de bom e de ruim irá influenciar no recorte do quadro. Portanto, por isso e por tudo que contei, posso afirmar: o fotógrafo faz mais que tirar fotos.

Então, para todo mundo que pensa em mudar de carreira para se tornar fotógrafo, aconselho que pense em tudo isso. Achar que a vida vai ser “só fotografar”, poderá lhe causar grande frustração. E você vai acabar sobrevivendo de fotografia, ao invés de viver dela.

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